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sábado, 7 de janeiro de 2017

Ser criança hoje em dia.

Primeira semana do ano. Fui buscar as notas da R depois de as ter visto na pauta.
De todas, intrigava-me mais o 3 a Formação Cívica do que o 3 a Matemática.
Ouço: Faladora. Distraída. Não pára quieta. Não se senta como deve ser. Mexe-se muito na cadeira. Interrompe. Quer ser sempre ela a falar.
Leio: "Nem sempre foi respeitadora para com os outros."

O que ouço não me surpreende. Conheço-a. Preocupo-me com o que leio. Conheço-a.
Converso com ela.
Ela diz que vai melhorar. Que vai conversar menos. Que vai tentar sentar-se mais direita. Promete que vai ter um 4 no próximo período.

No mesmo dia, um colégio do nosso País proibiu as crianças de correrem por entender que "correr, sem perceber os riscos que se corre, é falta de responsabilidade", acrescentando, "quer chova ou faça sol." e ainda "o bem estar e a saúde dos alunos é nossa prioridade".

Andei num colégio. Tinha um grande recreio, grandes salas e longos corredores. Havia regras, zonas de acesso condicionado, espaços que apelavam mais ao silêncio e algum sossego. Aprendemos a respeitar, a saber estar conforme o local. Crescemos. Não me lembro de nos proibirem expressamente de correr. Aliás das memórias que tenho é descermos as escadas em grande velocidade e atropelos para ver quem chegava primeiro ao recreio. Fazíamos corridas com pneus movidos a paus. Saltávamos ao elástico. E, imagine-se, transpirávamos! O mal que isto devia fazer à nossa saúde.
Xiii....mas que irresponsáveis éramos nós... ou quem permitia que isso acontecesse...
O colégio até tinha uma enfermaria onde uma freira simpática desenhava o sol e estrelas a mercúrio nos joelhos esmurrados. Suponho que isso agora não seja necessário.

Talvez neste século se tenha mudado a definição de criança e eu não me apercebi. O ser irrequieto passou a ser uma doença. Os bichos carpinteiros estão em vias de extinção. Já não há crianças com nódoas negras nas canelas e joelhos esfolados. A indústria dos pensos rápidos deve andar a passar um mau bocado...

Percebo que se tenha que saber estar, que as regras sejam para cumprir, que se eduque. Não só percebo como acho ESSENCIAL. Em casa é isso que incutimos. Todos os dias.  E sublinho!!!
E defendo que a educação vem de casa!

A minha filha canta todo o dia. Faz ginástica acrobática e dança. O corpo pede-lhe movimento. Tem uma escoliose que lhe faz doer as costas quando não se estica. Tem muitas vezes contraturas musculares. Faz amizades com facilidade. É popular. É amiga do amigo. É bem disposta. Fala alto.
Dá trabalho?
Sim, muito!
É mais fácil proibir?
Sem dúvida.
Se resulta proibir?
Não sei...

Corrijo-lhe a posição à mesa quase todas as refeições. Digo-lhe para falar baixo muitas vezes. Repreendo-a por interromper conversas. Aviso-a quando acho que está a ser respondona. Mando-a estar quieta no sofá umas 500 vezes durante uma série de TV. Se ela fosse uma estátua era bem mais fácil...

Desculpa R se a culpa é minha por te ter levado a passear no dia 31 de dezembro. Se te deixei molhar os pés no mar num dia de inverno, quase ao fim do dia. Se te dei a entender que era normal vestir um fato de banho e mergulhar. Se te deixo saltar. Se te incentivo a fazer o que gostas. Se dia 2 janeiro em vez de acalmar todo o dia no sofá te levei a saltar trampolins e chegamos a casa tarde, quando no dia a seguir começava a escola. Desculpa se dia 3 foste agitada para a escola e com vontade de contar aos teus amigos como foram as férias e a época festiva.

R, não tenho a menor dúvida que sejas uma miúda 5*, da mesma maneira que sei desde sempre que nos dás (e darás) muito "trabalho"!
Estamos cá para isso!


sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Nico


De um dia para o outro perdemos o Nico. O nosso Porquinho da Índia.

E há dias assim.
Em que choramos as lágrimas todas.
As que se acumulavam de muitas feridas mas nunca saíram.
Chora-se o inesperado, a rapidez com que a morte chega e nos apanha de surpresa, a impotência perante ela, o querer fazer mais e não estar nas nossas mãos, as coisas que tomamos como certas, as batalhas perdidas, os vazios que incomodam, os silêncios que aparecem, outras perdas, fins.
Choram-se memórias, saudades que existem e outras que hão-de chegar.

Hoje o Nico tornou todas as perdas mais reais.
Lembrou que as famílias não ficam iguais para sempre.
Que afinal ser mãe é também não resolver tudo. Não lhes arrancar a dor. Sofrer por e com elas.
"Hoje todos fizemos a nossa parte", foi a frase que ouvimos da veterinária e que a Raquel repetia ao deitar.
É importante saber disto. Saber que não há culpa embora ela ande por aí à espreita. Como chegou ele ao estado de "critical care"?; como lhe cresceram tanto os dentes e não reparamos?; como ficou tão magro?; porque deixou de comer?...

Era só um porquinho da índia, mas esteve na nossa família quase 3 anos.
Teve direito a um desenho de boas vindas e a outro de despedida.
Chegou e partiu num dia 5.
Esperamos que tenha tido uma boa vida aqui connosco.







quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Flores à chuva

"Nunca estive tão desiludida com a escola..."

Desabafou hoje ao almoço a minha R...
Aos 9 anos, no 4º de escolaridade.
A minha R. Aquela cheia de boa disposição. A que canta de manhã à noite. A que ri com vontade.
A que reclama de tudo quando as coisas não lhe correm de feição.
A refilona e argumentativa q.b.
A que não se importa de vestir calças floridas em dias de chuva...

(Sim, porque estamos formatados...Roupas claras, coloridas ou floridas são para Verão, cinzentos e outros tons escuros para Inverno... Cresci na sociedade que acha que no Outono mesmo que esteja calor já não se calçam sandálias nem se veste manga curta e que no Verão mesmo que chova não se usam gabardines. Quando entrei para a faculdade uma professora disse exatamente isto numa aula. Que ela não queria saber disso e usava o que bem lhe apetecia. Deu o exemplo das inglesas que vestem camisolas de lã ao mesmo tempo que usam saias sem meias. Até ali, nunca tinha pensado nisso. Mas sei que também eu estava formatada para achar que os ingleses de sandálias com meias ficam ridículos....mas espertos são eles, porque é do mais confortável que há!!!
A R passou toda a primavera e verão sem querer vestir estas calças. Num dia em que chovia a sério pegou nelas e perguntou se podia usá-las. A minha primeira reação foi abrir a boca para dizer que não eram muito adequadas a um dia de chuva.....felizmente não foram essas as palavras que me saíram...
Abri a boca mas disse que sim, que podia ser, que eram tão giras e que lhe ficavam tão bem!
Devo ter ficado uns 2 segundos de boca aberta até que me saíssem as palavras porque ela perguntou, "Tens a certeza?".
E ela vestiu calças brancas e floridas em dia de chuva. E já repetiu em dia de sol.
E fico feliz por não me ter saído da boca o que primeiro pensei. E fico feliz por ela não estar formatada.)

Já basta a desilusão com a escola....
Tem uma professora nova este ano.
As mudanças são normais e fazem crescer, mas ela só contava com isso no 5º ano. Ainda não criou laços com a nova professora. Está de pé atrás. Desmotivada. Queria ter um percurso igual ao da irmã. Diz que na festa de final do ano pelo menos não vai chorar de saudades...
Eu sei o que lhe falta....a palavra amiga, o abraço, o mimo, o conforto no conhecido e a confiança.
E essa parte não se pode pedir numa reunião de atendimento aos pais....é algo inato, de quem se dá a conquistar...
Ela ligou o modo defesa. Está em alerta. Já não conta tudo com a mesma naturalidade.
Encolhe os ombros como se estivesse só à espera que o ano acabe. Sinto nela um bocadinho de revolta, daquela que nos vai corroendo por dentro mesmo que os assuntos não sejam diretamente connosco. A mesma revolta que primeiro doí mas depois traz a força para encarar e superar.
Eu ainda tenho esperança que seja apenas a fase de adaptação à mudança, que a desilusão dê lugar à aceitação.

E perante as desilusões que a vida nos vai trazendo...
Porque não vestir cor no inverno?
Ou branco?
Ou flores?
O que interessa o que pensam os outros do nosso lado de fora?
Já basta como nos sentimos por vezes por dentro...


quarta-feira, 26 de agosto de 2015

"Recordar é viver"

Hoje a I perguntou o que acontece aos animais marinhos quando morrem.
"Ficam por ali a boiar? Afundam?" 
Não sei. Nunca tinha pensado nisso.
Nem ela nem eu.
Presumo que sim, ficam ali, no mar.
Não se fazem funerais, não se enterram no quintal, não têm como destino a sanita, como os peixinhos de aquário...
Nunca parei para pensar o que acontece aos milhares de peixes mortos que dão à costa, ou às baleias.

Hoje li esta notícia . Morreu um dos golfinhos mais velhos do Sado.
Percebi então de onde tinha vindo a tal pergunta.

Lembrei-me que já os tínhamos visto.
Vasculhei aqui no arquivo. Setembro 2010. Quase 5 anos.
Naquele dia demoraram a aparecer.
Quando já tínhamos perdido a esperança e achávamos que pelo menos o passeio de catamaran tinha valido a pena, eis que nos brindaram com a sua graciosa e simpática presença.
Já não me lembro se algum dos que vimos era o patriarca.


É bom percorrer albuns nas pastas do computador.
Recordar as caras redondinhas, as mãos pequeninas...os sorrisos.
5 anos é muito tempo. 5 anos mudam-nos tanto.
Por dentro e por fora.





terça-feira, 30 de junho de 2015

E perceber?!



Não é fácil de perceber desde tenra idade que a palavra amigo não é assim tão abrangente.
Não cabem todos no mesmo saco.
Que são poucos os que pela vida fora mantêm esse estatuto. Que os que ficam por perto são os que gostamos mesmo e nos fazem bem, mesmo que a distância ou o tempo aparentemente os afaste.
E perceber?

Este crescimento doí. As desilusões são das piores dores. As atitudes magoam.
E magoam mais quando chegam de quem menos se espera.
É um processo de aprendizagem, um "abre olhos" que acaba por se tornar num processo de seleção.
Há um dia em que desistimos. Fechamos o coração e a mão a quem se dizia amigo.

A mim doí-me mais ainda quando as desilusões são as delas.
Quando são elas que passam por estas dores.
Quando crescem e percebem que afinal amigo é uma palavra para poucos.
Que as BFF mudam demasiado rápido.
E perceber?

Mas depois fico feliz cá por dentro. Comovida e feliz.
Porque sabem distinguir quem lhes faz bem, com quem vale a pena estar.
Afastam-se. 

A I começou esse processo já há uns anos.
A R, apesar de sempre ter sido seletiva a convidar amigos para as festas de aniversário, ainda assim falava mais alto ter companhia do que brincar sozinha.
Há dias disse-me isso mesmo.
Com todas as letras. Com ar de crescida. Com ar de quem sabe bem o que diz.

Ontem, numa sequência de brincadeiras com batota, seguidas de injustiças e tentativas de gozar com os mais pequenos.....desistiu. 
Foi como que a gota de água num processo de tentativas de tolerância.
A irmã já tinha desistido.
A R insistiu, apesar de saber bem com o que podia contar.
Quando da injustiça e batota o alvo era menina mais nova de todas, o copo transbordou.
Disse o que tinha a dizer e afastou-se, trazendo a menina.
Gosto de as ver a identificar o que lhes faz mal desde cedo.
A decidir se ficam ou se se afastam.
Perceber custa.

.....triste fico por ver como e quem serão certas crianças no futuro...

domingo, 22 de fevereiro de 2015

E sei que vou ter saudades!


Segue-me como uma sombra.
Dizem que os rapazes são muito agarrados às mães.
Bem, se fosse esse o caso, então nem sei como seria.
O pai diz que ela se calhar quer voltar para donde veio.

Enquanto faço o jantar senta-se à mesa, na cozinha.
Faz os TPC, canta e trauteia músicas, umas conhecidas, outras inventadas.
Desconcentro-me a medir as mãos de arroz, enquanto respondo aos tempos dos verbos.
Começo a pensar que ando a perder a capacidade de fazer mais do que duas coisas em simultâneo.

Tende a perguntar para que divisão da casa vou para saber onde há-de ir, estar e ficar.
Gosta que alguém vá com ela à casa de banho. Talvez por isso ache que eu também gosto.
Prefere companhia no sofá. TV significa aconchego e mimos.
Quer ajudar na cozinha, mas geralmente naquilo que me dá menos jeito. Coisas banais como pôr a mesa não a cativam. Arrasta as cadeiras para chegar aos armários.

E do meio do nada, qualquer papelito serve para escrever coisas deliciosas.
Daquelas que de repente me calam quando perco a paciência por achar que não me larga um segundo.


(Enquanto escrevo isto - e só me sentei agora no computador!!!!!! -  estou em simultâneo a responder a enigmas do jogo do tablet que ela está a fazer ao meu lado. Já parei, li e reli isto mil vezes e de vez em quando ouço assim. "Quando puderes olhar....". Já estive a ver se alguma coisa lhe tinha entrado para o olho porque arde, respondi se pode comer cereais, mostrei como se escrevem meia dúzia de palavras em inglês noutro jogo...e ainda vamos deitando olhos e ouvidos ao programas de domingo à noite)


E as saudades que vou ter disto?!?!?
R, mereces tantos papelinhos destes... e todo o meu tempo!
Prometes que ficas por aí?
Eu fico.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

As asas servem p´ra voar

E aos 16 do mês de fevereiro de 2015, nesta altura em que os meses do ano já não merecem maiúsculas, o pai foi buscar a I a uma festa de anos.

Não ao fim da tarde, não num espaço com insufláveis ou pinturas faciais, não em casa de amigas com balões a indicar o local, nem a uma festa de pijama.

Foi buscá-la a um restaurante, às 22h30, depois de um cinema de fim de tarde, em que o filme era "demasiado infantil".

(Desta vez ainda com os pais da aniversariante)

Lembrei-me logo do meu pai a sair de casa às 4 da manhã para me ir buscar à discoteca...e depois ainda tinha que dar boleia a mais 2 ou 3 amigas minhas. E do pai de uma amiga que, a contar, que lhe calhava só a filha, até ía de pijama.

Pensava que estávamos tão longe disso, mas palpita-me que não tarda estamos lá...não porque ela fale nisso, mas porque ainda ontem a deixei no 1º dia de infantário e não me lembro o que almocei mas sei que a comida nem me passava na garganta...

Ela nasceu num Novembro, ainda com maiúscula. Eu também.
No Novembro dela, nasci outra vez, como mãe.

E vou nascendo um bocadinho todos os dias...








segunda-feira, 13 de outubro de 2014

"Por onde me dão."

Há dias em que me apercebo do que cresceram pelas calças que ficam curtas, pelos sapatos que deixam de servir, pela cobiça pelas minhas roupas, pelo espaço que ocupam na cama, principalmente quando se espreguiçam.
Lá vai o tempo em que cada uma podia estar encostada no seu braço do sofá, sem que os pés se encontrassem ao meio. Agora os pés e parte das pernas passam a linha invisível que separa os dois lados do sofá. O espaço que havia no meio para mim vai encurtando.

Há uma resposta tipíca de mãe (das babadas) para quando nos perguntam pelos filhos, pelo tamanho deles, quando nos dizem "imagino que estejam enormes" e nós dizemos com aquele orgulho que não se mede "Já me dá por aqui" e vamos apontando para as diversas partes do nosso corpo por onde os filhos nos dão.
Passei algum tempo a dizer que a I me dava por aqui, apontando para a base do pescoço.
Nem eu tinha ainda reparado que o "por aqui" já há muito tinha passado a linha do queixo.
Daqui a nada não me dá por lado nenhum. Vai-me ultrapassar.
Sei que hei-de acompanhar a frase "Está uma crescida" com o gesto da mão a passar por cima da minha cabeça, quando me perguntarem por ela.

A R vai subindo mais lentamente. Ela própria mede as suas conquistas em altura pelos armários da casa, pela bancada da cozinha, pelas prateleiras onde já chega sem um banco e por mim.
Gosta de ver por onde me dá, como se eu fosse uma régua daquelas que se penduram nos quartos das crianças, onde se registam etapas, ou das que há no pediatra para a curva do percentil. Encosta-se a mim e já é ela a dizer "Já te dou por aqui!".

E é também neste por onde me dão, que me apercebo do que crescem.
E do que enquanto crescem, eu aprendo.
Penso nas regras, nas que tentei, nas que nunca implementei, nas que deixo cair por terra.
No que gostava de ter feito melhor. No que se pudesse mudava.
No que ainda vou a tempo. Nas certezas que conquisto.

E quando adormecem e deixamos para trás a lufa lufa do dia, naquele instante em que parece que me dão só pela cintura, estas são as certezas que tenho.

- Dá-lhe colo mesmo que ela não peça.
- Deixa-a soprar a espuma do banho para o teu cabelo.
- ACREDITA nela.
- Diz-lhe que chorar às vezes faz bem.
- Limpa-lhe as lágrimas.
- Aperta-a de mimos.
- Abraça-a.
- Acorda-a devagarinho.
- CUMPRE as promessas.
- Dá-lhe a mão para dormir.
- Sorri-lhe.
- Não desvalorizes o que lhe vai na alma.
- Ouve-a.
- Acalma-a.
- Diz NÃO quando for preciso.
- Diz-lhe que gostas dela. Muito. Muitas vezes. 
- Faz-lhe um curativo mesmo que a ferida seja pequena.


segunda-feira, 10 de março de 2014

Nós apertados


Nós na garganta.
Nós no peito.
Nós no coração.

Nós dos que apertam.
Nós que não deslaçam nem desatam.

Dos que trazem angústias.
Dos que me põem a pensar....

Hoje ando assim com nós destes.
Destes, que nem o respirar fundo alivia.
Destes que me ocupam o dia.
Destes que me revoltam.

Tenho o corpo num lado e o coração noutro.

Só quero que se mantenham elas próprias, tal como são.
Lindas por dentro.

Gostava que fosse fácil afastar angústias.
Quando eram mais pequeninas pensavam em coisas boas para adormecer e afastar sonhos maus.
Os sonhos eram maus mas não eram reais.
As coisas boas eram simples, como "molhar os pés na praia", "sorrir", "abraços", "ver um arco íris", "brincar", "beijinhos", estarmos juntos", "estar confortável na caminha"...
Talvez por isso dêm valor à simplicidade e tenham valores.

Podia ser assim ainda....

Que os pensamentos felizes nos levassem a voar para longe, para a terra do nunca, onde não se cresce....

Pudesse eu protegê-las sempre...
Pudesse eu absorver os nós delas... desatá-los.

Sei os nós vão continuar.
Resta-me aliviá-los....com abraços apertados. Dos que apertam, mas sabem bem.








quinta-feira, 6 de março de 2014

Feridas e dores


casa de banho tem mesmo algo enigmático ou magnético, das duas uma!
(Suspiro)
Depois de estar ao lado da R sentadinhas no sofá lado a lado, fui tomar banho, e em menos de 2 minutos (acho que a água ainda nem tinha aquecido) entra ela a dizer que tem uma afta.
(Suspiro)

Já ouvi histórias de mães que fecham a porta e levam o computador e a chávena de chá e lá ficam a ver se se esquecem delas....
Digamos que raramente consigo fazer o processo -banho-vestir-secar cabelo- sem interrupções.
Aliás só a primeira palavra do processo é já uma vitória!
E no processo anterior acrescentar -cremes-então é um verdadeiro luxo.

E é nestas alturas que as feridas da R aparecem. Ou que ela as descobre.

Quase sempre é uma ferida que arde sem se ver, que doí e não se sente (assim tipo à Camões).
Para estas um penso rápido geralmente resolve o problema. Ou um beijinho. Ou uma espreitadela de 2 segundos à ferida e dizer que vai ficar tudo bem. Vai passar.

Outras são feridas que doem, não por fora, por dentro (assim mais à Abrunhosa).
Uma dor que desatina sem doer (lá vem o Camões outra vez)
Para estas não há pensos rápidos. São das piores. Das que me doem também. Das que me moem.
Dores de Crescimento
Restam-me dar abraços apertados e mimos. Mas apetece ser mãe leoa....
O amor é mágico (à Expensive Soul). Mas o amor de mãe não resolve tudo. Aconchega mas não cura.

E se há dias em que tenho "asas nos pés" (assim à Clã) , há outros em parece que "o mundo inteiro se uniu para me tramar" (assim à Rui Veloso).

E esperava que eu pudesse acartar com todas as feridas e dores delas.

Tento esquecer a mágoa, guardar só o que é bom de guardar (assim à Mafalda Veiga)...





quarta-feira, 5 de março de 2014

"Dei-lhe 5 euros e foi ao cinema"


"Dei-lhe 5 euros e foi ao cinema"

Palpita-me que já toda(o)s dissemos esta frase, quando nos visitam e as crianças não aparecem logo aos pulos, ou quando estranham o silêncio da casa e alguém acaba por perguntar por elas, com ar intrigado, ou talvez baste que nos vejam sozinhos.

Chegou o dia em que a frase é quase assim.

Foi ao cinema com amigas.
Mas não foi preciso dar-lhe 5 euros. Tirou do mealheiro.

Mas quando foi que esta frase que parecia uma coisa quase impossível de acontecer se tornou possível de pronunciar, sem sentido irónico?!?!?
Embora com o passar dos tempos, talvez 5 euros não cheguem...

Senti-lhe na expressão "Xau Mãe!" o gostinho a liberdade. A excitação da novidade. O ser crescida. Consegui prever a algazarra e as pipocas a voar e perguntei-me se iriam ver alguma coisa do filme.
Achei melhor nem pensar nisso.

Como chegamos até aqui?!
Não tarda tem ela os filmes atualizados em véspera de noite de óscares.




Em terça de Carnaval, não houve máscaras, não vimos desfiles, não fizemos lanches, não enchi a sala de serpentinas e balões, não houve por aqui princesas, piratas, mágicos, nem pop stars.
Acho que a chuva acabou com a pouca disposição.

"Dê a quem ama asas para voar, raízes para voltar e motivos para ficar" - Dalai Lama

Esta parte de dar asas tem que se lhe diga...

domingo, 27 de outubro de 2013

Mãe leoa



Qual mãe galinha qual quê?!??!

Às vezes dá-me uma vontade de arregaçar as mangas e dizer:
 “ Vá, metam-se lá com as minhas crias!!!”, assim tal e qual e com ar de leoa!

Não é bem mãe galinha de andar atrás, com elas debaixo da minha asa, ou de as controlar a tempo inteiro. Não.
Até lhes damos asas, até as deixamos respirar.
Brincam nas traseiras, com outras meninas, a mais velha já vai sozinha para a escola ….assusta um bocadinho, mas só assim entendem responsabilidade. 
À mas velha não proibimos saídas da escola, não controlamos números de telemóvel, não controlamos onde gasta o dinheiro do cartão da escola, deixamos ter email, mas avisamos dos perigos, todos! E isso faz crescer!  E até hoje só penso que é assim que tem que ser… só assim aprenderá a pensar pela cabeça dela, e a ser ela a distinguir o correto do errado e nunca mas nunca nos deu razões para deixar de confiar nela!

Quanto à parte de mãe leoa, essa é para mim a mais complicada….há que respirar fundo para não sair disparada a tirar satisfações a este e a aquele, sejam miúdos ou graúdos!
Custa vê-los tristes porque alguém os magoou, lá naquele coraçãozito tão nosso!
Só queremos é ver tudo resolvido para lhes doer menos.
Mas às vezes não dá, ou melhor até dava, mas será esse o nosso papel?!
Ou será que os devemos deixar resolver sozinhos aqueles assuntos que para nós às vezes parecem menores mas que para eles representam o peso do mundo?
Costumo apregoar que elas têm que aprender a resolver, a decidir, a falar ou a calar quando é preciso. Mas tenho dúvidas, embora saiba por intuição, que assim está certo….
Nós estaremos sempre cá, para celebrar sucessos, aparar as quedas e sarar as feridas!
Mas há outros que evitam as quedas dos seus, para não haver feridas. E não sei se devia ser mais leoa…..

Lá estão outra vez as Dores de Crescimento, as minhas e as delas!



NOTA: Eu sei que na foto não há leões!

domingo, 20 de outubro de 2013

Dores de crescimento - Saudades de colo

Parte I - Saudades de Colo


(para a menina mais nova)

Durante muito tempo pedias colo, mas não tanto em bebé….talvez depois, quando o carrinho deixou de andar connosco para todo o lado.
Se íamos a pé a algum lado que fosse, por vezes mal saímos da porta da rua, lá estavas tu a pedir colo, ou a estender os braços acompanhado de um olhar que derretia qualquer um. 
Quando o colo não era possível no imediato, agarravas-te às minhas pernas na esperança que brevemente alguém te concedesse um desejo.

Mais tarde, começaram as negociações, ir ao colo até à árvore mais próxima, até aquele candeeiro, até ao carro azul, ou mais tarde as insinuações que me faziam sorrir tal era a subtileza “ não achas que já andei muito?”

Veio também a fase das cavalitas, mas essas deixava para quem tem cromossoma Y!
Quando as cavalitas calhavam ao pai, este só se movia a um combustível especial: beijos que ías dando sempre que ele parava.

Por vezes lá te mostravas corajosa e ciente das promessas feitas, não as quebravas e fazias uns passeios a pé, que para ti já equivaliam a valentes caminhadas!

Por fim, assim como de repente deixaste de pedir colo....
Passou um dia, passou outro e de repente reparo que não te dou colo há tanto tempo… 
....o colo na rua, aquele que me cansava quando carregava sacos e carteira e a ti ao mesmo tempo!
Dei comigo a perguntar se querias colo….mesmo com sacos e carteira.
Sim, isso!! (xiiiiiuuuuuu ainda aparece aqui algum psicólogo infantil a dizer "Pare minha senhora!")


Agora sou eu que tenho saudades de te ter ao colo
Gosto de sentir os teus braços mais perto do meu pescoço.
A minha sorte é que não te importas, sorris, deixas-me levar-te e aproveitas para dar beijinhos.

Sim, eu também tenho Dores de Crescimento!