Mostrar mensagens com a etiqueta Coisas que me põem a pensar. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Coisas que me põem a pensar. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Do it for the memories!


A adolescência não é fácil. Não me refiro aos que com eles convivem mas aos próprios.
A adolescência não é fácil para os adolescentes.
Para começar há uma designação só para essa faixa etária. Há as crianças, os adultos, os idosos e os adolescentes! Não há designação para a década dos 20, dos 30 ou 40... e trintões ou quarentões não conta! Mas há uma para uns meros 6 anos.... dos 13 aos 19! Pensando bem tudo muda nestes 6 anos! Muda o corpo por dentro e por fora, chega uma maior pressão com as notas e as médias, integração na sociedade, aceitação pelo grupo de amigos, dúvidas existenciais, decisões que condicionam o futuro, generation gap, turbilhões de emoções, responsabilidades acrescidas, imposição de regras, alguma autonomia, sensação de incompreensão, expectativas e receios.
Como alguém disse, a expressão "idade do armário" aplica-se aos pais de adolescentes! Onde os pais se querem enfiar para escapar aos revirares de olhos constantes e aos ares de frete. Ainda não cheguei a este ponto. Tenho 2 anos e 6 meses de experiência com a minha adolescente e so far so good. Talvez por isso quando ela me falou que tinham que fazer um trabalho para Inglês sobre a temática da idade em que se encontram e que todos iam falar dos malefícios da internet e do lado menos florido destes anos, percebi que não era esse o caminho que ela queria seguir. Sugeri que falasse da parte boa.
- Como assim mãe?!
Ser adolescente não é só um poço negro de onde se quer fugir. Não é uma doença que queremos que passe. É uma fase, como há tantas na vida. Terá de certeza alguma coisa de bom. O armário pode ser um closet, e todos queremos ter um!
Não serão também dos melhores anos? Será a tecnologia só má companhia ou traz o benefício de permitir armazenar centenas (quiçá milhares!) de parvoeiras, caretas, momentos dos que ficam para mais tarde recordar?! Não haverá o lado das amizades, das conversas longas, das partilhas de sentimentos, das doideiras salutares nos intervalos, das gargalhadas sem motivo, dos olhares que se trocam nas aulas, as primeiras saídas à noite, as idas à praia só com amigas, de tanto para mais tarde recordar com saudade?!
Lancei a escada e ela subiu-a.
Era preciso procurar uma imagem e falar sobre ela.

Escolheu esta, algures da internet

Escreveu um texto e falou sobre ele à turma. Todos adolescentes como ela.
Não o posso partilhar devido ao RGPT de que tanto se fala por estes dias.
Mas posso dizer que lhe apanhou o gosto e explorou a temática com garra e sentimento, explorando o melhor e não o pior. Deixou-me orgulhosa. Vi que escreveu aquilo em que acredita.
No final recebeu um Very Well da professora e muitos elogios das colegas. Talvez não tenha sido só pela fluência no Inglês, ou por ser boa oradora. Acredito que tenha sido porque concordaram com ela! Talvez ainda não tivessem pensado assim. Foi a única a falar desta idade como algo positivo.
Ser adolescente, apesar do rótulo e do que se espera, pode ser dos melhores anos. Porque não dizemos mais vezes isto aos nossos adolescentes?!

"...from the first kiss to the first car..."

terça-feira, 17 de outubro de 2017

"Vou para casa"

Não sou muito apegada a coisas. 
Até costumo dizer que se me dessem uma chave doutra casa e tivesse que deixar a minha para trás, incluindo móveis e afins, eu ía sem pensar muito nisso. Talvez levasse livros, fotografias, álbuns e recordações não eternizadas pela era digital.
Mas isto não é o mesmo do que perder tudo, do que deixar de ter um lar para onde voltar.
"Vou para casa" é algo demasiado precioso para que seja possível sequer imaginar o que será não poder dizer esta frase.
Não sou de apegos a objetos, roupas, sapatos... mas sou de apegos às imagens que constituem a minha vida... Custar-me-ía horrores perder os registos dos primeiros passos das minhas filhas, dos primeiros sorrisos, de viagens, de férias em família, enfim de todos os pequenos pedaços que fazem da nossa vida uma história.
Talvez por isso, num inquérito feito há uns anos quando perguntavam "Em caso de incêndio o que retirava primeiro de sua casa?(com excepção óbvia de pessoas e animais)" a maioria respondeu "Fotografias".
Compreendo. Dou por mim a pensar na resposta aquela pergunta. 
É difícil mas seria a mesma. Ainda assim agora temos as clouds e os backups na internet...tudo perdido não estaria… 

A mais nova é de apegos. Não sai a mim. 
Não gosta que eu dê roupa que já não lhe serve, livros de infância, fatos de banho, sapatos, basicamente nada. 
Diz que tem boas recordações do que viveu com essas coisas. Ou seja, ela quer as coisas pelas recordações que lhe trazem. Lá vai dar no mesmo. O que nos custa é perder as recordações como se de repente fosse através das coisas que elas saltassem da memória. 

Talvez porque se torna difícil ter apenas o presente, como se o passado não fizesse parte de nós. Perder certas coisas parece perder passado, com medo que a memória não chegue. 

No outro dia demos um par de sapatilhas a um amiga, sim porque dado a amigas ela não se importa….tanto (acho que é porque fica por perto). Às vezes ela pede para lhe devolverem. Diz que é só emprestado. Passo umas quase vergonhas já que entre amigos não há disto.

Sobre as tais sapatilhas disse-me “Oh mãe é que foi com elas que aprendi a andar de bicicleta!”. 
Nem eu me lembrava o que ela tinha calçado nesse dia…mas ela sabe!
A mim chega-me ter as imagens desses momentos. Não preciso das sapatilhas.

Mas preciso muito de dizer a frase "Vou para casa".


quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Lições

Hoje de manhã perguntaram-me o que é que estava no lixo no local onde trabalho.
Tentei explicar assumindo que ela não saberia do que eu estava a falar se utilizasse a terminologia adequada. Tentei simplificar nas palavras achando que ela teria receio de mexer no lixo quando o limpa. Fui surpreendida. Afinal ela reconhecia alguns termos. Perguntei como.
Tem um curso superior noutra área e trabalha nas limpezas.
Ela disse que tem muito orgulho por trabalhar. Muita gente lhe diz que não faria o que ela faz. A meio perguntou se eu estava muito ocupada. Falamos um bocadinho. Agradeceu os dedos de conversa.
Dei por mim a questionar-me se, até à data, a teria tratado de forma diferente por usar um avental e não uma bata. Espero que não. Mas mesmo sem querer julgamos muitas vezes.
Afinal usou ela termos que eu nunca tinha ouvido, da área dela.
Falou das cadeiras que teve na faculdade, tantas iguais às minhas, do que gostaria de fazer, da esperança que tinha que a vida tivesse boas surpresas para ela.
Orgulho é o que ela sente e eu senti admiração.
Exemplos de força e determinação vindos do nada, numa simples conversa pela manhã.

Lembro-me de como um Dr. no cartão MB mudava drasticamente a forma como nos atendiam numa loja, principalmente nesta cidade de doutorices.
Um dia a Dª L que trabalha na minha casa, foi buscar a minha filha mais velha à escola, tinha ela uns 7 anos. Amigas dela perguntaram quem era a senhora. Avó? Tia? Amiga da mãe? A minha filha não respondeu. Não foi capaz de utilizar as palavras "empregada" ou descrevê-la como alguém que trabalhava na nossa casa. A Dª L respondeu por ela e contou-me depois. Disse-me que não eram todas as crianças que fariam o que ela fez com aquela idade. Fiquei de nó na garganta de tanto orgulho e de mais uma lição de gente miúda.

Gosto que me lavem o cabelo, aprecio um café bem tirado, sabe bem sentar-me à mesa num restaurante e esperar que me sirvam, preciso que passem a ferro a roupa da minha casa, que reparem a máquina de lavar, que pintem as paredes da sala, que alcatroem as estradas...

É isto que quero que as minhas filhas levem para a vida. Todos precisamos de todos.
Não há profissões mais importantes que outras.
Somos todos membros duma sociedade que só funciona porque cada um tem o seu papel.
Sinais de superioridade é do mais triste que pode haver.

Das coisas mais estranhas que vi até hoje foi uma mãe na fila para a Kidzania mini, num centro comercial, opinar sobre as profissões que o filho devia escolher para brincar.

Não há um dia em que a vida deixe de nos dar lições.



quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Horas felizes vs fatalidades

Há dias estivemos no Gerês. Subimos e descemos rio acima e rio abaixo.
Levamos as miúdas, uma de 11, outra de 14 anos.
Fomos a miradouros muito conhecidos mas não mais protegidos por isso. A mais velha deixou cair os óculos de sol na famosa Pedra Bela, e ninguém arriscou a ir buscá-los e caso o tivessem feito eu não teria deixado.











No Gerês impõe-se descobrir cascatas. Mergulhar nas águas geladas onde não há vigilância.
Isto tudo pode parecer perigoso. E parecendo pode efetivamente sê-lo.
O pai da casa relembrou que devíamos estar sempre juntos e sempre todos ao alcance da vista.
Assim que disse isto a mais nova escorregou numa pedra e mergulhou vestida até à cintura. Felizmente era baixo e não torceu nenhum pé nem se magoou. Foram só calças e sapatilhas molhadas e ficou tudo pela risota.

Tinha talvez a idade delas mais coisa menos coisa quando com amigos dos meus pais fizemos o mesmo, adultos e crianças. Subimos e descemos pelas pedras até cascatas desertas. Escorregamos, arranhamos joelhos e mãos, mergulhamos, subimos paredes, descemos amarrados a ramos. Hoje falamos disso como uma aventura que deixou saudades.

Ontem uma criança de 12 anos caiu numa cascata onde estivemos há 15 dias e fez ferimentos graves.
É uma cascata muito frequentada, tem até estacionamento e um acesso por um caminho ainda que acidentado. À entrada tem um cartaz da GNR a alertar para os roubos nas viaturas estacionadas e um outro com a mensagem "perigo de queda" e "perigo de morte". Não se trata portanto dum sítio ermo e sem acessos ou mesmo proibido.
Podemos optar por seguir certas regras das que existem apenas na nossa cabeça ou ignorar estes avisos do bom senso. Não me ocorreria colocar as miúdas em risco propositadamente e o cartaz faz esse papel do relembrar dos perigos. Sabemos que os cuidados acrescidos têm que imperar, e ainda assim acidentes acontecem. As pedras estão polidas, escorregam dentro e fora de água. Há desníveis enormes e zonas mais arriscadas. Há também caminhos laterais alternativos onde o risco é menor. Disse várias vezes "Tenham cuidado", e ouvi também o mesmo, com consciência. Estamos sem dúvida em alerta e modo atenção redobrada.
Vimos várias pessoas e crianças em situações de risco que rapidamente identificamos e as miúdas também. Chegaram a pedir-nos para avisarmos que era melhor não estarem ali, que havia um caminho melhor, etc. Há situações de risco mas que no geral sabemos antever quais serão.
Felizmente temos também boas recordações deste fim de semana embrenhados no Gerês, numa cabana num parque de campismo, em família.

Hoje vi a notícia da avioneta da praia que matou uma criança e um adulto, e outra dum adolescente que morreu ao saltar duma prancha numa praia fluvial vigiada. Talvez em nenhum destes casos se adivinhasse tragédia com esta origem. Talvez não se pudesse evitar. Talvez não entrem aqui os avisos de cuidados acrescidos. São das tais fatalidades que dão que pensar...

Quem vai à praia pode ponderar vários riscos, mas nunca levar com uma avioneta em cima.
Os alertas que accionamos são outros. Ir à praia com os filhos aparenta ser uma tarefa pacífica.
E mergulhos de pranchas, em praias fluviais e piscinas, quantos se dão?! Quantos correm mal?!

Fatalidades. Acasos. Azares. Má hora no sítio errado?!
Cenas que me dão para pensar.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Comichões

Ela há coisas que me fazem comichão, e eu não sou nada dada a alergias.
Mas tenho algumas embirrâncias, daquelas que se fossem alergia já me tinham causado algum prurido ou em doses elevadas um possível choque anafilático.

Assim sendo fazem-me comichão coisas como:

- Regras que não fazem sentido
- Quem se acha perfeito ou, pior ainda, superior
- Injustiças
- Gente que sabe mais da vida de terceiros do que da sua
- Invejas
- Fundamentalismos
- Críticas a tudo e todos só porque sim
(ele é o busto do Ronaldo, o terço da Joana, a tolerância de ponto porque vem o Papa, os animais que já não são só coisas, a música cantada pelo Salvador...) - cansa não ouvir nada que seja efectivamente construtivo! Apre! Não consigo lidar bem com quem critica agredindo verbalmente, em vez de apenas opinar. E aí abespinho-me, embora bem menos do que há uns tempos. Opiniões e diferenças temos todos, mas não percebo a prática do criticar sem objectivo nenhum a não ser o do maldizer.... ai, desabafos, pronto!
- Cobranças (De acções não de dinheiro! Não fizeste isto. Não telefonaste. Não disseste nada.)
- Falta de sentido de humor (sim, porque apesar dos maldizeres gosto muito de boas piadas e até me consegui rir com a piada recente de se ter medo que a Joana vá às Caldas da Rainha fazer algo em grande, como é já seu hábito.)

e no topo embirro com ...

Mantas em forma de cauda de sereia e mousses feitas só com 2 ingredientes.
Tenho dito.

E o mais certo é que ao escrever isto esteja também eu a criticar alguém... talvez porque todos temos um lado mais podre.




segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A má da fita

Custa-me ser a má da fita.

Mas este é o lado de mãe que educa e coloca no lugar de mãe e não do de melhor amiga.
A má da fita que relembra que há TPC´s para fazer, que diz "não me fales assim", que perdeu o poder de argumentação porque se cansa, que tem que ser dura e crua quando as faz ver a realidade com a cabeça e não com o coração.
A má da fita porque apela às responsabilidades, insiste e repete até ser chata.
A má da fita porque depois ainda diz que avisou e que sabia que "isto ía acontecer".
A má da fita porque ajuda mas também desespera e perde a paciência.
Porque as faz ver, mesmo que não peçam, que há atitudes nos outros que não são de amigo.
Porque é uma "abre olhos", e diz que o Mundo não é um lugar só cor-de-rosa.
Porque diz que é preciso levar o casaco, e o guarda-chuva, e saem-lhe da boca as frases típicas de mãe, "tem cuidado" e "tem juízo", quando elas crescem e começam a voar para fora do ninho e não há mais nada a fazer a não ser deixá-las ir e confiar.
Porque está sempre a adiar a ida à piscina aos domingos. Porque tem sono.
Porque diz para arrumar o quarto, não atirar água para fora da banheira e tirar as sapatilhas da sala.
A má da fita porque as apressa de manhã, porque manda lavar os dentes, porque as quer mais autónomas, mais numas coisas que noutras.

Porque diz que não e impõe limites sem razões aparentes. Porque tem medos.
Porque lhe apetece responder, "Porque sim" a todos os porquês que exigem respostas completas.
A má da fita porque elabora listas do que já fez desde que acordou e ninguém colabora.
Porque anda esbaforida e depois berra sem razão.
Porque desabafa em frases feias, "já não se posso ouvir", "cala-te só um bocadinho", sempre que precisa de espaço. Porque lhe sabe bem ficar sozinha.
Porque não aceita que lhe mintam. Porque fala de dedo levantado com ar ameaçador.
Porque diz a verdade ou uma mentira piedosa.
A má da fita porque sabe que tantas vezes basta um abraço, mas faz primeiro um discurso, mesmo sabendo que já devia ter parado.
Porque se irrita quando não param quietas, ou por tudo e por nada.
Porque se enerva quando tem que explicar a mesma coisa 2 vezes.

A má da fita porque se transforma em leoa, quando lhe "magoam as crias", mas também lhes diz quando outros adultos estão certos. Porque ensina o que é respeito pelos outros.

Custa-me ser a má da fita.
Seria mais fácil ignorar revirares de olhos, dizer que sim a tudo e dar palmadinhas nas costas.

Eu não sou a melhor amiga das minhas filhas.
Não é esse o meu papel.
Para o meu papel existe só uma palavra: MÃE. Aquela associada ao amor incondicional.
Uma melhor amiga quase nunca é a má da fita!
Eu não posso dizer sempre que está tudo bem, mas posso dizer que vai ficar tudo bem.

Até porque ser a má da fita há-de ter um objectivo, ainda que nem sempre muito claro a uma curta distância...


sábado, 21 de janeiro de 2017

Coisas bizarras, esquisitas ou quiça assustadoras.


Esta terá sido a coisa mais bizarra que me lembro de ter acontecido cá em casa com as miúdas.
Não sei bem se entra na categoria coincidências, mas também talvez se lhe possa chamar isso.

Uma noite, há uns anos, fui acordada pela I. Chamava-me do quarto e queixava-se de estar a sangrar do nariz. Quase no mesmo instante, do quarto ao lado, chamou-me a R.
E aqui entra o factor X Files....também estava a sangrar do nariz!

O que vale é que eu tinha muito sono e depois de tudo resolvido e calmo fui dormir e não pensei mais naquilo.
Mas agora, reflectindo mais nisto, parece coisa de ET´s.
Pode ter sido quando lhe puseram o chip no nariz...

tu ru ru ru ru ru

sábado, 7 de janeiro de 2017

Ser criança hoje em dia.

Primeira semana do ano. Fui buscar as notas da R depois de as ter visto na pauta.
De todas, intrigava-me mais o 3 a Formação Cívica do que o 3 a Matemática.
Ouço: Faladora. Distraída. Não pára quieta. Não se senta como deve ser. Mexe-se muito na cadeira. Interrompe. Quer ser sempre ela a falar.
Leio: "Nem sempre foi respeitadora para com os outros."

O que ouço não me surpreende. Conheço-a. Preocupo-me com o que leio. Conheço-a.
Converso com ela.
Ela diz que vai melhorar. Que vai conversar menos. Que vai tentar sentar-se mais direita. Promete que vai ter um 4 no próximo período.

No mesmo dia, um colégio do nosso País proibiu as crianças de correrem por entender que "correr, sem perceber os riscos que se corre, é falta de responsabilidade", acrescentando, "quer chova ou faça sol." e ainda "o bem estar e a saúde dos alunos é nossa prioridade".

Andei num colégio. Tinha um grande recreio, grandes salas e longos corredores. Havia regras, zonas de acesso condicionado, espaços que apelavam mais ao silêncio e algum sossego. Aprendemos a respeitar, a saber estar conforme o local. Crescemos. Não me lembro de nos proibirem expressamente de correr. Aliás das memórias que tenho é descermos as escadas em grande velocidade e atropelos para ver quem chegava primeiro ao recreio. Fazíamos corridas com pneus movidos a paus. Saltávamos ao elástico. E, imagine-se, transpirávamos! O mal que isto devia fazer à nossa saúde.
Xiii....mas que irresponsáveis éramos nós... ou quem permitia que isso acontecesse...
O colégio até tinha uma enfermaria onde uma freira simpática desenhava o sol e estrelas a mercúrio nos joelhos esmurrados. Suponho que isso agora não seja necessário.

Talvez neste século se tenha mudado a definição de criança e eu não me apercebi. O ser irrequieto passou a ser uma doença. Os bichos carpinteiros estão em vias de extinção. Já não há crianças com nódoas negras nas canelas e joelhos esfolados. A indústria dos pensos rápidos deve andar a passar um mau bocado...

Percebo que se tenha que saber estar, que as regras sejam para cumprir, que se eduque. Não só percebo como acho ESSENCIAL. Em casa é isso que incutimos. Todos os dias.  E sublinho!!!
E defendo que a educação vem de casa!

A minha filha canta todo o dia. Faz ginástica acrobática e dança. O corpo pede-lhe movimento. Tem uma escoliose que lhe faz doer as costas quando não se estica. Tem muitas vezes contraturas musculares. Faz amizades com facilidade. É popular. É amiga do amigo. É bem disposta. Fala alto.
Dá trabalho?
Sim, muito!
É mais fácil proibir?
Sem dúvida.
Se resulta proibir?
Não sei...

Corrijo-lhe a posição à mesa quase todas as refeições. Digo-lhe para falar baixo muitas vezes. Repreendo-a por interromper conversas. Aviso-a quando acho que está a ser respondona. Mando-a estar quieta no sofá umas 500 vezes durante uma série de TV. Se ela fosse uma estátua era bem mais fácil...

Desculpa R se a culpa é minha por te ter levado a passear no dia 31 de dezembro. Se te deixei molhar os pés no mar num dia de inverno, quase ao fim do dia. Se te dei a entender que era normal vestir um fato de banho e mergulhar. Se te deixo saltar. Se te incentivo a fazer o que gostas. Se dia 2 janeiro em vez de acalmar todo o dia no sofá te levei a saltar trampolins e chegamos a casa tarde, quando no dia a seguir começava a escola. Desculpa se dia 3 foste agitada para a escola e com vontade de contar aos teus amigos como foram as férias e a época festiva.

R, não tenho a menor dúvida que sejas uma miúda 5*, da mesma maneira que sei desde sempre que nos dás (e darás) muito "trabalho"!
Estamos cá para isso!


sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Dá que pensar...


A I não ganhou peso nos primeiros 9 dias de vida.

Até aos 2 anos chorava muito tempo seguido nem ninguém entender o porquê sendo muito difícil fazê-la sair daquele estado. Uma destas vezes veio a vizinha do andar de baixo ver se estava tudo bem.

A fritar croquetes, e enquanto segurava a R ao colo por estar rabugenta (ainda nem andava), salpicou-lhe óleo para a testa. Levei-a às urgências com várias marcas redondas de queimaduras. Felizmente não deixaram cicatriz

Certo dia, a segurar a R no escorrega do parque infantil, fiz-lhe um arranhão na cara com a unha. Ainda hoje tem a marca.

Num espaço de 2 semanas a R deu entrada nas urgências com, 1: golpe na cabeça, resultante de pancada na esquina duma parede da sala depois de ter dado um encontrão ao pai. 2: Lábio aberto por ter batido com a boca num DVD depois de estar a disputá-lo com a irmã.

Esqueci-me de levar a I à segunda dose da vacina do HPV no mês correto. Embora tenha sido eu a telefonar para o Centro de Saúde para me informar sobre o assunto ouvi logo em tom reprovador "A menina tem a vacina em atraso".

Uma vez comeram as duas sopa meia azeda. Só me apercebi depois.

Saí directamente da escola para o Centro de Saúde para um curativo duma ferida no joelho da I. A enfermeira disse-lhe "Também tens aqui uma nódoa negra" e ela respondeu "Acho que é sujo. Já não tomo banho há alguns dias".

A I tinha uma pigmentação escura na dentição de leite. Muita gente pensava que era falta de higiene.

Num internamento da I, aos 4 anos, tive que me impor e dizer que não deixava que lhe retirassem uma sonda que lhe tinham enfiado no nariz a muito custo algumas horas antes e ainda ouvi da enfermeira de serviço da noite" Prefere ver a sua filha a sofrer?".
Não, não preferia....mas sabia o que ela tinha passado para pôr a sonda e os médicos tinham feito ela prometer que não a arrancava de modo a que pudessem tirar-lhe as talas de madeira dos braços. Pedi antes se podiam dar-lhe alguma coisa para as dores e manter a sonda...

Já fui "acusada" de me recusar a fazer o historial clínico da minha filha I, também num episódio de urgência. Aliás o que levou ao internamento...
A minha filha gritava de dores. Tinha tido alta na véspera, altura em que contei tudo. Foi medicada e foram registadas várias informações clínicas. Se havia quem tivesse historial mais completo era o hospital....

Descobri que a R já se punha em pé quando a vi na cadeira da papa muito contente de pé a bater palminhas. Estava sem cinto.

Há momentos em que me salta a tampa, perco a paciência e berro com elas.

Já tive discussões à frente delas.

Quantas vezes as quedas maiores que elas deram foram mesmo debaixo do nosso nariz? Quantas vezes desviámos o olhar 2 segundos e foi quando se magoaram?

Ao analisarmos a vida de cada um de nós ao pormenor, não existirão muitas situações destas?!
Será que aos olhos de outros que não me conhecem seria considerada negligente?

Eu sei que a partir do dia em que nasceram o meu coração passou a bater do lado de fora. Sei que não há amor igual. Sei que não faria nada que as magoasse intencionalmente. Sei que faria tudo ao meu alcance para as proteger. Eu sei. Quem me conhece de perto sabe.
Mas quem visse apenas factos, do lado de fora, saberia?

Ouvi os casos recentes na comunicação social (confesso que não vi a reportagem) sobre como no Reino Unido retiram facilmente as crianças aos pais, e opiniões diversas sobre ser exagerado, revoltante, desumano, ou até compreensível face a factos e evidências, e não estando na posse de informações suficientes para tirar conclusões, como mãe que sou só me dá para pensar...

Cada cenário visto fora dum determinado contexto pode parecer diferente do que é.
Olhando para a lista atrás, sem explicações, só encarando os factos nus e crus, o impacto seria certamente outro.
Em muitos casos haverá uma explicação lógica. Noutros de facto não.
E é neste limiar, que se torna difícil agir...

Cada vez mais acho que cada caso é um caso, e que em todos se deviam considerar pais e crianças, como seres reais num mundo real e não no papel. Ouvir, ver e analisar, antes de tomar medidas drásticas, que venham a ser mais prejudiciais que vantajosas para qualquer das partes.
Deve ser difícil, pode parecer demasiado utópico, mas seria essencial!

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Real Life?

O jogo da vida.
Um jogo de tabuleiro que nos leva pelas várias escolhas da vida, ao ritmo da sorte.
Numa fase inicial temos que escolher ir para a Universidade ou ter uma carreira profissional logo de imediato. Na primeira o salário chega mais tarde, na segunda começamos logo a ganhar dinheiro. Em ambos os caminhos podemos escolher a profissão, mas o leque de opções varia conforme a decisão inicial de frequentar ou não o ensino superior.
Chegam as oportunidades de comprar casa, e há que ponderar qual comprar face aos empréstimos contraídos ou ao dinheiro que temos amealhado. Surgem as opções de fazer seguros, de saúde, para a casa, para o carro.
Pelo meio vão entrando despesas extra ....aniversários dos amigos, despesas com a saúde, reparações de avarias, inundações da casa, obras, festas dos filhos...ou vamos tendo recompensas, por reciclar, por ajudar os sem abrigo, por fazer voluntariado....
À medida que se avança no jogo é possível casar, ter filhos, sendo eles gémeos, rapaz ou rapariga, ou adoptar.
Pelo meio o jogo vai oferecendo alternativas, podem-se escolher caminhos mais rápidos, frequentar a escola à noite, investir em negócios, embora se perceba que nem tudo é controlado por nós.

Descobrimos este jogo numa casa de férias alugada a uns ingleses e como tal está em Inglês. Na altura as miúdas tinham uns 6 e 10 anos e depois dumas explicações iniciais e de várias jogadas em família lá íam jogando sozinhas a dominar o inglês, nem que fosse pela repetição das instruções ou com a ajuda das imagens. Achavam piada à semelhança com a vida.
Mais tarde procurei na net e acabei por lhes oferecer o "Life", também em inglês.

Há dias estivemos a jogar.
Ambas escolheram o caminho da Universidade. É engraçado ver que tipo de casa escolhem, a profissão, se dão valor ao ordenado, se escolhem ter seguros ou arriscam, se preferem ter meninas ou meninos. No jogo fui optando por coisas diferentes do que é a minha vida. Fui logo trabalhar, escolhi uma vivenda, decidi ter filhos rapazes.
Quando chegou a minha vez de casar, elas perguntaram-me "E queres casar com um homem ou com uma mulher?"
Rimos.
Mas na verdade a pergunta nem teria surgido se os tempos não fossem outros.

O jogo termina com a idade da reforma a chegar e a entrada num lar, embora se possa escolher qual. Ganha o jogo quem tiver mais dinheiro amealhado, somando o valor das propriedades e descontando os empréstimos e as dívidas.

A I concluiu que assim não tinha piada: Independentemente da vida que escolhemos todos no jogo têm o mesmo fim. E quando chegamos ao fim, o que interessa o que temos?

Real life?!

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Posso ser eu?

Aos 10 anos ainda é assim:

À porta de casa:
Posso ser eu a abrir a porta?

No MB:
Posso ser eu a tirar o cartão?
Posso ser eu a carregar no botão?
Posso ser eu a tirar o dinheiro?

No Café:
Posso ser eu a pôr o açucar?
Posso ser eu a mexer o café?
Posso ir pagar?

No Supermercado:
Posso ser eu a pesar a fruta?
Posso ser eu a passar as compras?
Posso levar o carrinho?

Por outro lado parece impossível as coisas que se vão mantendo com o passar do tempo e para as quais nunca ouço a pergunta começada por "Posso ser eu...?" e a quantidade de tarefas que vou martelando todos os dias...

Vai pôr os chinelos (sapatilhas, sapatos, botas, sandálias...) no quarto.
Já lavaste os dentes?
Leva o prato (caneca, copo) à cozinha.
Não te esqueças do casaco.
Já arrumaste a mochila para amanhã?
Já tiraste a roupa do saco da ginástica?

(estas mantêm-se aos 13 quase 14)

Isto deve estar relacionado com aquele fenómeno nos bebés de gostarem mais das chaves do carro do que dos brinquedos para aliviar as gengivas....vem do berço!

Ou como quando num restaurante assumimos que elas não gostam duma coisa e pedimos só para nós, para logo a seguir ouvir "Posso provar?". Mas se tivéssemos pedido logo à partida era um filme...

E afinal....é assim que crescem! Nesta constante vontade de copiar, de ser crescido, curioso, seguir exemplos, quebrar regras e de nem sempre apetecer fazer tarefas chatas....como todos nós, os adultos.

                                                        R a devorar a sopa de peixe do pai.
                                                           


quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Amor igual

Li algures que quando trocamos de nome ao chamar alguém, é porque se trata de um caso de amor igual.
Acontece por exemplo quando trocamos o nome dos filhos.
Até aqui parece ter alguma lógica.

O  meu problema é que troco várias vezes o nome da gata pelo da R....ou seja quando vou ralhar com a gata pelos disparates sai-me o nome da mais nova.

Isto deu-me um nó na cabeça....
Então isto é amor igual?! Ou será mais a atirar para o disparate do mesmo género?!?!
Num destes em que me dirigi à gata em jeito de chamada de atenção ameaçadora....lá me saiu o nome da criança.
"Oh Mãe, porto-me assim tão mal?!"

Não filhota, deve ser porque são as duas as crianças da casa!

(Não costumo chamar Maggie à R. Já não é mau!)


segunda-feira, 7 de março de 2016

Há sorrisos que ninguém me tira!

Pode ser difícil de entender...

Porque não se deitam cedo.
Porque madrugam para provas ao fim de semana.
Porque muitas vezes jantam quando deviam estar a meio do primeiro sono.
Porque vão treinar com dores nos pés, no pescoço, nas costas.

Mas é assim.
Apaixonaram-se.
E diz-se "Quem corre por gosto não cansa".
A ginástica é a paixão delas. O que as move.
É ali que passam muitas horas. Que alimentam amizades para a vida num salutar convívio.
Partilham angústias, medos, incertezas, lágrimas e também os momentos mais felizes!
Organizam o tempo de modo a dar para tudo. Fazem opções.
Aprendem num mundo que também é delas, a ser, a estar, a cair e a levantar a cabeça.

Era mais fácil se se deitassem mais cedo, se houvesse menos correrias, menos stress, mais tempo, menos irritações, mais fins de semana livres, mais tempo para pequenos nadas.
Sei que é esta paixão que dita o ritmo dos dias, como se fossem elas a mandar.

Para mim, ser mãe é (também) isto. Acompanhar as paixões.
Posso estar muito errada. 
Mas estou bem comigo assim.

Fico a torcer nas bancadas. Vibro com as alegrias. Compreendo os desalentos e frustações.
Encolho o coração, sustenho a respiração, fecho os olhos.
Estou lá.
Talvez me canse. Talvez afinal também corra por gosto.
Perguntam-me se não me falta o ar quando as vejo de cabeça para baixo, sem nenhuma parte do corpo a tocar chão firme. Ou porque raio treinam se estão lesionadas. Ou porque vão a uma prova que implica faltar às aulas. Ou se não serão horas a mais, ou se não afeta os estudos...
Só me ocorre responder que faz parte. Faz parte do desporto que escolheram e da dedicação que lhe entregam.

Passei a perceber o que é uma circular, uma ordem de passagem, os diferentes escalões, e já começo a ficar perita na localização de alguns pavilhões desportivos deste Portugal. 

A minha maior paixão são elas.
Por isso são elas que me movem.
Tudo tem o seu tempo.
Por agora é assim.
Os sorrisos que lhes vejo no olhar ninguém me tira!
Sou uma sortuda!



domingo, 17 de janeiro de 2016

Que mundo este...

A R tem 9 e já faz pequenas tarefas, como ir à mercearia ou à padaria sozinha.
Fica tudo a 2 passos de casa.
Ela gosta de se sentir crescida, destes momentos de autonomia e da confiança que lhe é dada.
Claro que, apesar da curta distância e da conhecida vizinhança, sabe que não deve parar para falar com estranhos. Que mundo este.... Com a idade dela ía sozinha para a escola. Mas isso foi noutro século.


Hoje fez um destes rápidos recados. Quando entrou em casa disse:

"Mamã, estava ali um senhor perto do jardim que deixou cair o pão todo. Eu perguntei se podia ajudar. E apanhei o pão do chão, sacudi um bocadinho a terra e pus no saco. Nem estava muito sujo. Agora estou cheia de pena do senhor...coitado..."

Quando ela começou a conversa fiquei logo mais atenta mal ouvi "estava ali um senhor"..
Perguntei se o senhor era velhinho. Ela disse que sim.

Deve ter percebido porque perguntei aquilo. Passado uns minutos disse:
"Achas que fiz mal em ajudar o senhor?"
Respondi que não.

E fiquei a pensar....Mas que mundo é este em que o simples facto de ajudar alguém pode
estar contaminado com dúvidas e incertezas?!

A R fez bem. Ajudou quando acho que era preciso. Agiu por instinto.
Algo que nos é natural ainda....felizmente!
Mas depois lembrou-se....era um estranho...e hesitou. Ficou a pensar.

E eu? Duvidei também. Mesmo sem ter visto.
Sim, nuns segundos passou-me pela cabeça que um estranho poderia deixar cair o pão do saco para atrair uma criança...
Não gostei deste pensamento. De ter duvidado. De ter sequer hesitado na resposta que dei.
Mas sou mãe.
Tenho medos. Alguns deles novos.
Estou contaminada por demasiadas histórias.

Ficou-me a martelar a frase "Achas que fiz mal em ajudar o senhor?!"....
Mas pior de tudo foi o ter respondido que não mas ter ficado a pensar num "e se?"...
Que mundo este...que nos transforma, que nos perturba os instintos naturais de ser humano e de ser.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Mensagens do universo

Mais um fim de semana. O segundo do ano.
Ainda não parou de chover. Este Janeiro está encharcado.
A roupa lavada está na mala do carro. Nas lavandarias há fila quase até à porta. Apesar da tentação de me sentar ali sem nada para fazer, resisto.

Tenho dores no corpo todo. Felizmente ainda não é reumático, mas 3 horas a arrumar a cozinha é coisa para equivaler a várias aulas de ginásio com personal trainer. Que pena tenho de não ter um contador de calorias queimadas para me sentir mais realizada.

Para o que me havia de dar. E nem é Primavera...não estamos em maré de limpezas profundas.

A ideia era só tratar das casas dos animais...a gaiola do Nico e a casa de banho da Maggie. Ela até me acordou e eu sei que quando ela anda muito à minha volta precisa da casa limpa!
Quanto à gaiola do Nico decido levar a base diretamente ao contentor do lixo. Não porque queira poupar em sacos de plástico, mas porque esta ação de despejo dentro de casa dá sempre asneira e acaba geralmente com uma parte da porcaria no chão. E assim foi. Mas fora de casa. Ía caindo nas escadas e como tal, zás....metade da porcaria espalhada em pelo menos 3 degraus.
Abro a porta da rua. Chove copiosamente. Assim que ponho um pé na rua percebo que calcei umas botas que têm um rasgo por baixo. Consigo, com sucesso, despejar o restante no contentor, apanhar uma molha e ainda ter direito a varrer as escadas, e voltar ao contentor!

Eu sei que "Nada acontece por acaso", mas, nestes casos gostava de saber onde está a grande mensagem do universo. Preciso de me sentir grata por ter animais? Precisarei de comprar umas botas? Preciso de ir ao ginásio?

É quase hora de almoço. Em menos de nada entrará uma miúda esfomeada pela porta adentro e tenho a cozinha em pantanas. Começo a pensar porque guardo embalagens de chocolate em pó vazias....Coisas de mãe que sabe que um dia destes pedem uma lá da escola. É nestas alturas em que penso que devia ter ficado quietinha e focado as minhas energias no almoço. Coisas à hora certa. Dar prioridade à fome.
Olhando para o estado da cozinha diria que o almoço não está nos planos para os próximos dias.
Juntaram-se sacos de compras que acabaram de chegar, os brinquedos da gata e água que parece nascer do chão junto ao lavatório.
A I vem ajudar a tratar do Nico.
Devia ter comprado pizzas. Sempre era só abrir o forno.
A miúda continua a insistir na fome. Eu sei que já são horas, eu sei...
Lá tenho que transformar a cozinha num local acolhedor antes que me acusem de desleixo e maus tratos.
Pelo menos deixei as gavetas sossegadas e não me meti com o armário dos detergentes.

Ainda assim descobri que há sítios que a minha empregada desconhece... e certos objetos, que pelo fim a que se destinam, não devem merecer melhor destino. A pá e o balde do lixo servem para isso, lixo, mas não quer dizer que não possam ver água. Ela bem diz que "Eu cá só trato das cuecas do doutor!". Apesar da estranheza da frase, tem uma lógica explicação - é que sendo o único homem da casa, são as únicas que ela distingue e sabe arrumar no sítio certo - mas não a iliba do resto. Ao guardar copos de Gin, descubro outros de Nutella vazios. Muitos. Mesmo. Foram promovidos ao armário da sala e acompanhavam agora os cristais, prenda de casamento.
Há uns bolores estranhos por baixo da pia. Só me lembro dos episódios do Dr. House e de alguma doença pulmonar estranha que vou apanhar por respirar isto.
O que se descobre na nossa própria casa!!!...

Continuo a pensar nas mensagens do universo....Preciso de mais tempo em casa? Preciso de desistir da empregada? Preciso de me organizar mais? Preciso racionar a Nutella? Talvez limpar os cristais?

Apesar do fogão estar organizado para pensar no jantar, conseguimos almoçar depois de instalados os animais.
Recusei mais ajuda porque nestas alturas a ajuda implica perguntas e respostas e tende a complicar mais do que simplificar....pelo menos os nervos.
A tarefa da limpeza prolongou-se por parte da tarde.
E assim que estiver tudo limpo e no sítio, deve vir uma das miúdas dizer que tem fome e quer lanchar. Já estou a imaginar as facas fora de sítio, as migalhas....
Acho que vou mesmo proibir a entrada de todos até à hora de jantar. Só para ter a sensação de cozinha limpa e arrumada aí por uns 15 minutos e para sentir que estive a fazer algo de verdadeiramente útil!

Ainda não foi desta que desfizemos a árvore. Mas agora que olho para ela reparo que a gata tem feito a sua parte. Se a deixar ali, talvez pelo Carnaval esteja sem qualquer enfeite.


Acho que o Universo me quer mesmo dizer alguma coisa.




quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Grandes lições de gente pequena por fora


Gosto que ela o trate pelo nome quando me conta como foi o dia.
Partilham a mesma inicial.

- "O R é tão fofinho!"
- Quem é o R?!
- "Aquele menino que viste no 1º dia que tinha uns óculos azuis."
- Do 1º ano?
- "Sim, aquele menino que tem um problema."

Já sabia quem era.
O R tem Trissomia XXI.
Eu, como adulta, se me referisse ao R talvez tivesse começado por aqui para o identificar.
Ela não. Começou pelo nome. Depois pelos óculos azuis. Pelo facto de o termos visto no 1º de aulas.
Segui-lhe o exemplo e perguntei se era do 1º ano.

Os olhos das crianças vêm sem filtros, sem rótulos, de forma pura e diretamente do coração.
Sabem escolher as palavras.

"Sabes mamã, o R não percebe bem as campainhas...às vezes fica sentado no recreio...depois vão buscá-lo e levam-no por um braço. Mas não precisavam de levá-lo assim....Era mais justo se ele pudesse brincar. Ele às vezes vem a correr ter connosco e abraça-nos. Costumo dar-lhe bolachas das minhas."

Hoje é Dia Internacional das Pessoas com Deficiência.
Ouviram a história do Elmer, o elefante xadrez.
Amanhã vão pintar um Elmer. Cada um o seu. Com as cores que escolherem. Todas diferentes.

Quero acreditar que a R e outras meninas e meninos de grande coração farão deste mundo um lugar melhor para o R e todos os meninos e meninas com outra iniciais, portadores de grandes lições de vida.




quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

A estranheza da simpatia...


"Até foi simpático..." ouço.
Ouço e digo.
E estranho.
E mais estranho acho quando a frase vem da boca delas, crianças, que também já reparam...
Como se ser simpático fosse algo que não esperávamos...que não era suposto encontrar em certos sítios, ou certas profissões.

Somos, ainda que sem querer uma sociedade de sobrolhos franzidos, semblantes carregados.
O esperado é o carrancudo, a cara de frete, a falta de um sorriso.
Estranhamos os dois dedos de conversa entre pessoas que não se conhecem.

Se nos oferecem alguma coisa então ficamos logo de pé atrás. Voltamos a estranhar.

Crescemos na desconfiança do provérbio "Quando a esmola é grande o pobre desconfia" mas inclinados a aceitar o que nos oferecem "A cavalo dado não se olha ao dente".

Estranhamos a simpatia.
"Até foi simpático..." dizemos.

Quando é que: 

Sorrir se tornou um sinal de fraqueza?
A simpatia deixou de ser inata?
A desconfiança se instalou?

Na noite do concerto dos D.A.M.A. ficamos no Typical Lisbon Guest House.
Na cozinha, tinham esta mensagem numa terrina de peças de fruta. 
A primeira reação foi surpresa. Foi achar que não é normal, que nesta sociedade ninguém dá nada a ninguém....
"Free" - outra palavra que causa estranheza....
"Feel at home" ...
 Lá veio o "Até são simpáticos..."


quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Tardes não programadas

Este Momento Filha Única não foi programado.
Uma dor lateral na barriga e costas levou-nos às urgências do pediátrico.

Entrada 13h04. Saída 20h40.
Para lá de 7 horinhas na maior das proximidades.
Haverá lá melhor tempo de qualidade para criar laços mãe-filha?!

Conversamos. "Almoçamos" da máquina. Ela dormiu no meu colo (quer dizer, deitada nas cadeiras e com a cabeça no meu colo.) Lanchamos no refeitório. Conversamos.
Observamos as vidas dos outros. Eu sei que não se faz, mas é impossível não reparar quando não há mais nada para onde olhar durante 4 horas de sala de espera, como previa o aviso para o código verde.Vai-se percebendo a impaciência crescente de mães e crianças. Mais das mães.
O cansaço de quem desespera. Nestas esperas que as febres baixem, que o xixi chegue, que as dores passem que os vómitos parem a constante é o "Sai daí; Pára quieto; Anda para aqui; Senta-te; Vais apanhar...; Tu tens é sono".

Revi-me em alguns daqueles desesperos, cansaços e intolerâncias. Mas noutras vezes. Não desta.

Havia mães e pais, mães com avós, mães com avôs, mães sozinhas. O número de sacos e mochilas aumenta na razão inversa à idade da criança.
Uma das que estava sozinha falava alto, como quem quer meter conversa com a mãe da cadeira do lado, como quem precisa de desabafar sobre as horas que passam, os números que vão chamando e as dores nas costas ou como quem quer saber se os filhos das outras têm coisas mais graves.
Várias falavam alto para as crianças, como se quisessem mostrar que estão atentas e presentes mesmo que os deixem correr só até à esquina da sala. Insistem para que comam.
Umas fingem que não vêm quando as crianças se deitam no chão, ou mexem na máquina do café.

Havia 2 meninos quase da mesma idade. Não deviam ter ainda dois anos.

Um deles tinha uma mãe desesperada da seca de ali estar. Várias mudas de roupa depois, o miúdo andava só de fralda. Corria toda a sala de espera, subia e descia cadeiras, carregava em botões. Comia pão sentado no chão. A mãe bufava, punha as mãos na cabeça. A avó tentava agarrar o miúdo que entretanto lhes tentava bater e fingia que cuspia. Nenhuma "fazia nada dele". Levantavam-lhe a mão e ameaçavam bater. Seguravam-no ao colo enquanto ele esperneava. Bateram-lhe no rabo. Deitaram o pão ao lixo porque ele não obedecia. Puxavam-no do chão por um braço.Toda a sala ía olhando. Sei que ela se sentia observada. Sei que só queria que ele dormisse um bocado. Sei que só queria que lhe dissessem que podiam ir para casa.

O outro, andava por lá a passear. Espreitava os mesmo botões, subia às mesmas cadeiras, observava as pessoas a tirar café. A mãe estava sentada a vê-lo. Nem percebi logo quem seria a mãe. Nunca lhe falou alto. O menino ia ter com ela de vez em quando. Ela dava-lhe colo mas não o prendia perto dela. Foi avisando para não mexer, para ter cuidado. Ele apontava para as coisas como quem pergunta o que é, ela ía respondendo. Talvez estivesse lá há menos horas. Talvez não tivesse havido ainda mudas de roupa e choros de cansaço ou fome. Talvez não estivesse tão preocupada com o trabalho, ou com o que deixou por fazer em casa.

Sei que não fui a única a reparar nestas diferenças.
Sei que quando estamos de fora vemos com outros olhos.
Não deixo de pensar nestes pares ação-reação e nas teses sobre comportamentos que se escreviam só duma sala de espera!

Finalmente chegou o nosso número.
Nada de conclusivo. Iríamos ter que esperar por mais um resultado. A I foi à casa de banho.
Chamaram-nos em menos de 5 minutos.
Afinal era precisa mais uma recolha de urina....
Ela tinha acabado de ir à casa de banho...
Adivinhava-se mais uma espera.
Aliás, duas esperas.
E eu nem sei como não me fartei.

A I fez exercícios de matemática enquanto bebia água para que a vontade chegasse mais depressa.
De tanto esperar e perguntar se já queria ir à casa de banho quem tinha vontade era eu.
Finalmente chegou a vontade e o resultado. Negativo.
Nada de conclusivo.
Dor de origem desconhecida.
Ala para casa. 

E, estranhamente, fica aquela sensação "tanta hora para nada"...e a receita do analgésico na mão.
A sala está outra vez à pinha. Entraram mais 100 crianças depois de nós.
Adivinham-se mais  "Sai daí; Pára quieto; Anda para aqui; Senta-te; Vais apanhar...; Tu tens é sono; Cala-te".

Respiro fundo e vamos embora.
Ainda bem que não era nada.




quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Ainda são 206

Ontem ouvi dizer que alguns ossos mudaram de nome.
São ainda 206, salvo raras exceções. Também nisto da quantidade não há muito a fazer...
Agora ninguém fratura o perónio mas sim a fíbula.
As falanges, falanginhas, falangetas são afinal, só falanges, embora proximais, médias e distais.
A rótula é afinal uma patela, uma simples omoplata passou a escápula e o cúbito é afinal uma ulna.

Não sei há quanto tempo isto aconteceu. Fui pesquisar e reparei que continuam a existir as duas opções para o nome, embora as designações que conhecíamos serem as "antigas".
Também não sei como está isto implementado na comunidade médica. Será usada efetivamete a nova nomenclatura ou a bem do entendimento geral usam-se os nomes velhinhos?

Mas então porque no meio de tanta mudança de conteúdos programáticos no 1º ciclo não se atualiza o que de facto vai mudando em vez de os tornar exaustivos ou desadequados à idade?!
Para quem está a aprender o nome dos ossos pela primeira vez, tanto faz ter que memorizar fíbula como peróneo....
Há que chamar as coisas pelos nomes então.
Mas não. No 1º ciclo continua tudo com caneladas na tíbia (este não mudou!).
Nunca ouvirão falar da fíbula formerly known as perónio.

Se ontem uma mãe enfermeira não me tivesse informado disto, e ouvisse o nome destes ossos "novos" até poderia pensar que se tinham descoberto mais alguns e que já nem eram 206!
Nunca fiando!

Umas coisas evoluem à velocidade da luz outras nem por isso.
Vá-se lá entender...


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Ginger Ale

Num dia quente deste verão pedi um Ginger Ale.
Acho que não bebia isto há anos.
Perguntaram, "Com limão e gelo?"
Lembrei-me de repente que era examente assim que se bebia um Ginger ale. Com limão e gelo.
Lembrei-me que o pedíamos pelo nome de "pneu". E se o tratássemos assim já incluía o gelo e o limão.
Talvez fosse só lá na minha terra.

Isto do quase outono da vida, dá-nos para pensar e questionar algumas coisas.
É tipo uma segunda idade dos porquês.

E então deu-me naquele momento para pensar de que será feito um ginger ale?
O guaraná ten extrato de guaraná. E o ginger ale vinha do quê?!
Fui ler o rótulo.

E foi, em passos largos a caminho dos 42, que descobri que é de ...gengibre.
O gengibre. Aquele que está agora mais na moda.
Na comida, nos chás, na água...pelos seus benefícios para a saúde e outras propriedades.
E que eu até gosto bastante.

Afinal já andava por aí há uns anos, disfarçado na forma açucarada e provavelmente menos saudável, dentro duma garrafa.
Ginger ale?! De gengibre?!
A sério nunca pensei....